Advocacia

Sociedade unipessoal de advocacia:
o que é, quando compensa e como abrir

O CNPJ que permite ao advogado sair do carnê-leão sem precisar de sócio — e as três regras que fazem a conta mudar completamente de figura.

Por Wendelson Gouveia — contador responsável · CRC 332592

Desde 2016 o advogado pode ter CNPJ próprio sem inventar um sócio. É a sociedade unipessoal de advocacia. Na prática ela costuma reduzir a carga tributária de quem fatura bem — mas carrega três particularidades que quase ninguém explica antes da abertura: o registro não é na Junta Comercial, o INSS patronal fica fora da guia do Simples, e o Fator R não se aplica. Abaixo, cada uma delas — e os casos em que abrir não compensa.

O que é a sociedade unipessoal de advocacia

A sociedade unipessoal de advocacia foi criada pela Lei 13.247/2016, que alterou o Estatuto da Advocacia (Lei 8.906/1994). Ela permite que um único advogado constitua uma pessoa jurídica para exercer a profissão, com CNPJ próprio.

Antes disso, quem queria um CNPJ tinha duas saídas ruins: arrumar um sócio de fachada, com todo o risco que isso carrega, ou seguir como autônomo, tributado pela tabela progressiva da pessoa física.

A sociedade unipessoal resolveu esse impasse. Ela mantém a responsabilidade profissional do advogado — que continua respondendo disciplinarmente perante a OAB pelos atos que pratica — mas separa o patrimônio da banca do patrimônio pessoal para as obrigações civis e tributárias da sociedade.

Advogado pode ser MEI? Não — e o motivo importa

Essa é a primeira pergunta que aparece, e a resposta é direta: não. A advocacia é profissão regulamentada e não consta na lista de ocupações permitidas ao Microempreendedor Individual.

Não se trata de detalhe burocrático. O MEI tem teto de faturamento baixo e uma lógica de tributação fixa que o legislador reservou a atividades não regulamentadas. Quem tenta contornar isso registrando um CNAE genérico para emitir nota de "consultoria" acaba com dois problemas somados: irregularidade fiscal e exposição disciplinar perante a OAB, porque a atividade privativa de advocacia estaria sendo exercida por fora do registro próprio.

Atenção

Já vimos escritórios usando CNAE de "atividades de consultoria em gestão empresarial" para faturar honorários advocatícios. Além do risco fiscal, isso pode ser lido como exercício irregular da profissão. O caminho correto é a sociedade unipessoal.

O registro é na OAB, não na Junta Comercial

Esta é a diferença que mais confunde — inclusive contadores que não atendem o setor. A sociedade unipessoal de advocacia não é registrada na Junta Comercial. O ato constitutivo é levado ao Conselho Seccional da OAB do estado onde a banca terá sede.

A consequência prática é grande: quem tenta abrir pelo caminho comum da Junta acaba com o processo travado ou, pior, com uma sociedade empresária registrada indevidamente — que depois precisa ser desfeita. O CNPJ na Receita Federal só vem depois da aprovação na OAB.

Quanto se paga de imposto: o Anexo IV e a pegadinha do INSS

No Simples Nacional, os serviços advocatícios são tributados pelo Anexo IV. A alíquota inicial é de 4,5% sobre a receita bruta para quem está na primeira faixa, subindo conforme o faturamento acumulado dos últimos 12 meses.

Só que o Anexo IV tem uma característica que muda tudo: a contribuição previdenciária patronal (CPP) não está incluída na guia do DAS. Nos Anexos I, II e III, o INSS patronal já vem embutido. No Anexo IV, não — ele é recolhido à parte, em GPS, à alíquota de 20% sobre a folha e sobre o pró-labore dos sócios.

O erro clássico

O advogado compara os 4,5% do Anexo IV com os 27,5% do carnê-leão, acha que economizou 23 pontos e abre a empresa. Aí descobre o INSS patronal por fora e a conta real fica bem diferente da que ele projetou. A comparação honesta precisa somar todos os tributos, não só a alíquota do DAS.

Por que o Fator R não salva o advogado

O Fator R é o mecanismo que permite a certas atividades migrarem do Anexo V (mais caro) para o Anexo III (mais barato) quando a folha de pagamento representa pelo menos 28% da receita bruta. É a principal alavanca de planejamento para muitos prestadores de serviço.

Ele não se aplica à advocacia. O Fator R é regra dos Anexos III e V. Como a advocacia está no Anexo IV, aumentar o pró-labore para "melhorar o Fator R" não reduz nada — só aumenta o INSS a pagar.

Esse é um dos pontos em que um contador sem experiência no setor mais erra: aplica a receita que funciona para a clínica médica ou para a agência e piora a situação da banca.

Autônomo ou sociedade unipessoal: a comparação que importa

A tabela abaixo resume as diferenças estruturais entre os dois caminhos. Os valores dependem do faturamento, da folha e do município — use-a como mapa de decisão, não como cálculo pronto.

CritérioAdvogado autônomoSociedade unipessoal
Imposto sobre a rendaTabela progressiva, até 27,5%Anexo IV, a partir de 4,5%
Base de cálculoRendimento líquido mensalReceita bruta da empresa
INSSContribuição individual sobre o recebido20% patronal sobre o pró-labore, por fora do DAS
ISSEm geral fixo anual por profissionalPossibilidade de ISS fixo (varia por município)
Separação patrimonialNenhumaPatrimônio da banca separado
Contratar com pessoa jurídicaMais difícilNatural — emite nota como PJ
Custo de manutençãoPraticamente zeroContabilidade, obrigações acessórias, DAS mensal

A leitura resumida: a sociedade unipessoal tende a compensar quando o faturamento é constante e relevante. Em faturamento baixo ou irregular, o custo fixo de manter a empresa pode comer a economia tributária.

O ISS fixo que muita banca deixa na mesa

Sociedades uniprofissionais — aquelas formadas por profissionais da mesma habilitação, prestando serviço pessoal — podem, em muitos municípios, recolher ISS em valor fixo por profissional habilitado, em vez de percentual sobre o faturamento.

Para uma banca que fatura bem, a diferença entre pagar um valor fixo anual e pagar um percentual sobre cada nota é expressiva. O tema tem jurisprudência consolidada reconhecendo o direito das sociedades de advogados, mas a aplicação varia de município para município e muitas prefeituras resistem — o que às vezes exige discussão administrativa.

Vale conferir

Se a sua banca recolhe ISS como percentual do faturamento, vale verificar se o município reconhece o regime fixo para sociedades uniprofissionais. É uma das revisões de maior impacto e menor esforço no setor.

Quando NÃO compensa abrir

Nem todo advogado ganha com a sociedade unipessoal. Os casos em que ela costuma não valer a pena:

  • Faturamento baixo ou muito irregular. Empresa tem custo fixo: contabilidade, obrigações acessórias, DAS mensal mesmo em mês sem receita relevante.
  • Advogado empregado que faz um caso ou outro por fora. O volume raramente justifica a estrutura.
  • Quem está prestes a se associar. Se a sociedade com outro advogado já está no horizonte, abrir unipessoal agora só gera retrabalho.
  • Renda concentrada em sucumbência e precatórios imprevisíveis. Merece simulação específica antes de decidir.

Não existe resposta única. O que existe é uma simulação com os seus números — faturamento, pró-labore pretendido, município e composição da receita.

Como abrir, passo a passo

1Regularidade na OAB. O advogado precisa estar adimplente e sem impedimento no Conselho Seccional.
2Ato constitutivo. Elaboração do contrato social da sociedade unipessoal, com objeto restrito à advocacia e razão social contendo o nome do advogado.
3Registro no Conselho Seccional da OAB. É aqui, não na Junta Comercial. A OAB analisa e aprova o ato.
4CNPJ na Receita Federal. Emitido depois da aprovação na OAB, com o CNAE de atividades jurídicas.
5Inscrição municipal e alvará. Cadastro na prefeitura para emissão de nota fiscal de serviço e enquadramento do ISS.
6Opção pelo Simples Nacional. Feita no prazo legal, com enquadramento no Anexo IV e definição do pró-labore.

Perguntas frequentes

Advogado pode ser MEI?
Não. A advocacia é profissão regulamentada e está fora das ocupações permitidas ao MEI. O caminho para ter CNPJ sozinho é a sociedade unipessoal de advocacia.

Preciso de sócio para abrir?
Não. Esse era exatamente o problema que a Lei 13.247/2016 resolveu. Um único advogado pode constituir a sociedade.

A sociedade unipessoal protege meu patrimônio pessoal?
Ela separa o patrimônio da banca para as obrigações da sociedade. Mas o advogado continua respondendo pessoalmente, perante a OAB e civilmente, pelos atos profissionais que pratica. Não é blindagem.

Qual o Anexo do Simples para advocacia?
Anexo IV, com alíquota inicial de 4,5%. Lembrando que o INSS patronal de 20% sobre o pró-labore fica fora da guia do DAS.

O Fator R vale para advogado?
Não. O Fator R é regra dos Anexos III e V. A advocacia está no Anexo IV, então aumentar o pró-labore não reduz a alíquota — só aumenta o INSS.

Posso ter sociedade unipessoal e ser sócio de outro escritório?
Em regra o advogado não pode integrar mais de uma sociedade de advogados com sede na mesma base territorial do Conselho Seccional. Vale confirmar a situação específica antes de constituir.

Já sou autônomo. Vale a pena migrar?
Depende de faturamento, município e composição da receita. Em faturamento constante e relevante costuma compensar; em receita baixa ou esporádica, muitas vezes não. A decisão pede simulação com os seus números.

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P.S.

A escolha entre autônomo e sociedade unipessoal é uma decisão de planejamento tributário — e, como toda decisão desse tipo, ela precisa de propósito negocial e substância, não de um arranjo montado só para pagar menos. Se quiser entender a lógica antes de decidir, comece por o que é planejamento tributário.

Wendelson Gouveia, contador responsável pela Foxcont - CRC 332592

Wendelson Gouveia

Fundador & Diretor — Foxcont Contabilidade e Consultoria · CRC 332592

Contador com atuação em planejamento tributário, estrutura societária e BPO financeiro. Atende escritórios de advocacia, clínicas e empresas de serviço em Mogi Guaçu e região.

Conteúdo informativo, atualizado em agosto de 2026. Regras tributárias mudam e a aplicação depende do caso concreto, do município e do regime da empresa. Este texto não substitui a análise individual de um contador.

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